Experiências

Planejar uma viagem para um lugar que não entende você

MS·Set 2026·7 min de leitura

Faz três semanas que tenho uma aba aberta com o mapa de um bairro que nunca vi. Sei o nome das ruas porque o mapa me diz, em letras latinas que o próprio mapa inventou para mim. Mas quando troco a visualização para o idioma local, as ruas somem. Viram traços. Fico olhando aqueles caracteres como quem olha uma parede onde deveria haver uma porta, e percebo que vou chegar lá assim: analfabeto. Um adulto funcional que não consegue ler a placa de um ponto de ônibus.

Essa foi a primeira coisa que o planejamento me ensinou, muito antes de qualquer passagem: a sensação exata de não saber ler. Não é abstrata. É o corpo se preparando para depender de gestos, de paciência alheia, de um tradutor de bolso que vai errar nos momentos mais importantes.

Eu poderia ter escolhido outro lugar. Existe uma lista inteira de destinos onde o cardápio vem em inglês, o metrô fala comigo e ninguém estranha o jeito como pego o garfo. Seria uma viagem boa. Seria também uma viagem em que eu continuaria sendo exatamente quem já sou, só com outra paisagem ao fundo. E acho que foi isso que me incomodou. Em algum ponto, viajar virou uma forma sofisticada de ficar em casa.

Então escolhi um país cujo idioma usa um sistema de escrita que não reconheço. Não por heroísmo — é uma viagem, não uma expedição — mas porque queria ver o que sobra de mim quando tiram os atalhos.

“Planejar bem não é controlar a viagem. É preparar o terreno para que o acaso tenha onde cair.”

O que mais me surpreendeu até agora não foi o lugar. Foi a pesquisa.

Comecei do jeito óbvio: vídeos, listas, "dez coisas que você precisa saber antes de ir". Em poucos dias o algoritmo já tinha entendido o que eu queria e passou a me entregar uma versão do país feita sob medida para o meu desejo. Os mesmos cinco cafés. A mesma rua fotografada do mesmo ângulo. A mesma trilha "pouco conhecida" que aparece em trezentos vídeos. Era um país inteiro reduzido a um feed, e o feed era eu mesmo refletido de volta, com legendas bonitas.

Percebi que estava pesquisando não um lugar, mas uma confirmação. Queria que o destino fosse como eu já imaginava, e a internet, prestativa como sempre, estava disposta a garantir isso.

Foi aí que mudei de método. Fechei as listas. Fui atrás de textos longos, escritos por gente que mora lá e não está vendendo nada. Li sobre o horário em que os mercados abrem, sobre o que se faz quando chove, sobre a etiqueta de entregar um objeto com as duas mãos. Coisas pequenas, sem foto, sem promessa. É um conhecimento mais lento e mais chato, e também o único que parece ter alguma chance de sobreviver ao contato com a realidade.

Existe uma pergunta que fica rondando: por que escolher o atrito?

A resposta mais honesta é que o atrito é onde a experiência fica. Quando tudo é fácil, nada deixa marca. Uma viagem sem desconforto é uma viagem que a memória descarta em seis meses, porque não exigiu nada do corpo nem da atenção. Pedir um prato por mímica, errar o trem, entender só na terceira tentativa que a loja estava fechada — tudo isso é constrangedor e é exatamente por isso que fica.

Mas há outra camada, que percebi só planejando. O desconforto intencional é um treino para algo que vivo mal no dia a dia: aceitar não estar no controle. Sou o tipo de pessoa que organiza. Tenho uma planilha. Tenho uma pasta com os documentos. Sei o número do trem que pretendo pegar num dia que ainda está a meses de distância. E ao mesmo tempo sei, com certeza quase matemática, que o que vou lembrar dessa viagem não vai estar na planilha.

Vai estar no desvio. Na conversa que não planejei, no bairro em que entrei por engano, na tarde em que o plano caiu e tive que inventar outra coisa. Toda viagem que valeu alguma coisa na minha vida foi feita do que não estava previsto. E mesmo assim continuo planejando, com um cuidado quase ridículo, porque é o jeito que encontrei de me dar permissão para depois soltar.

Planejar bem, descobri, não é controlar a viagem. É preparar o terreno para que o acaso tenha onde cair.

Há também a questão de quem eu vou ser lá.

Em casa, carrego uma identidade que os outros já conhecem. As pessoas sabem o que esperar de mim e, de certa forma, eu correspondo. Num lugar onde ninguém me conhece, onde nem sequer consigo me explicar direito, essa identidade fica suspensa. Não sou meu trabalho, minha história, meus argumentos. Sou um corpo numa fila, uma pessoa pedindo informação com um sorriso meio constrangido. Reduzido ao básico.

Não sei quem sou quando nada do que me define está disponível. O que sobra, quando a linguagem que uso para me apresentar ao mundo simplesmente não funciona?

Não sei a resposta. Talvez seja essa a razão da viagem, mais do que qualquer templo ou paisagem.

Por ora, o que tenho é a planilha, a aba aberta com o mapa ilegível e um caderno onde anoto palavras que estou tentando aprender e que vou pronunciar mal. Tenho datas. Tenho uma mala que ainda não comecei a fazer e uma pequena ansiedade que não sei se é medo ou se é só a vida preparando espaço.

A viagem ainda não aconteceu. E já me mudou um pouco — o que me faz pensar que talvez a parte mais importante de ir embora seja esta: o tempo em que você ainda está aqui, olhando para um lugar que não entende você, e descobrindo, sem querer, que também não se entendia tão bem assim.

— MS