Indicações
Numa conversa de trabalho, alguém que admiro listou cinco livros de uma vez. Anotei os cinco no celular, ali mesmo, enquanto ele falava. Um sobre performance com equilíbrio. Um sobre comunicar com brevidade, o que me pareceu uma ironia dentro de uma lista de cinco. Um de física sobre o que acontece com o mundo a partir da computação quântica. Um de memórias de um executivo que reinventou uma empresa que todo mundo tinha dado por morta. E um texto, não um livro, sobre irracionalidade competitiva, que ele resumiu numa frase e que eu já esqueci.
Meses depois, abri a nota. Não tinha lido nenhum.
Minha primeira reação foi a de sempre: culpa, aquela sensação de dívida intelectual que toda lista de leitura produz. Mas dessa vez fiquei olhando a nota por mais tempo e percebi outra coisa. A lista não dizia muito sobre os livros. Dizia sobre quem indicou. Alguém que lê sobre performance e equilíbrio está pensando em como não se queimar. Alguém que indica um livro sobre brevidade está, provavelmente, cansado de reuniões longas. Alguém que recomenda um executivo que virou uma empresa está pensando em viradas. A lista era um retrato da cabeça dele naquele momento, e ele tinha me dado o retrato achando que estava me dando livros.
Comecei a reparar nisso em todas as indicações. Minha lista de leitura tem dezenas de títulos, e quase todos vieram de alguém. Os estoicos vieram de uma fase em que eu precisava de chão, e a pessoa que me indicou estava passando pela mesma coisa. O livro sobre fintechs veio de um artigo que alguém compartilhou num grupo, numa semana em que todo mundo estava tentando parecer informado. Os dois volumes sobre inteligência artificial vieram de um colega que estava, naquela época, com medo de ficar obsoleto. Eu não lia os livros. Eu guardava os medos e os desejos das pessoas, catalogados por título.
“Eu não lia os livros. Eu guardava os medos e os desejos das pessoas, catalogados por título.”
Isso muda a forma como vejo a lista. Ela não é uma fila de obrigações. É uma coleção de momentos em que alguém olhou para mim e pensou: ele precisa disso. Às vezes a pessoa estava certa. Às vezes estava falando de si mesma. Quase sempre as duas coisas.
E tem o lado inverso, que é mais desconfortável. O que eu indico? Nos últimos meses, indiquei a mesma dupla de filósofos antigos para três pessoas diferentes, em três contextos diferentes. Um estava mudando de emprego, outro tinha perdido alguém, o terceiro só comentou que estava cansado. Mesma indicação. Se a teoria vale, eu não estava respondendo a eles. Estava dizendo o que eu próprio precisava ouvir e usando a boca deles como espelho. Não sei se isso é generosidade ou se é só projeção com capa dura.
O que decidi fazer com a lista não foi lê-la. Foi anotar, ao lado de cada título, quem indicou e em que situação. A nota ficou mais longa e mais útil. Agora, quando abro, não vejo trinta livros que não li. Vejo trinta conversas, e algumas delas eu quero retomar. Um dos livros virou pretexto para ligar para a pessoa e perguntar se ela chegou a ler. Não tinha lido também. Rimos. A lista cumpriu uma função que nenhum dos livros teria cumprido.
Vou ler alguns. O de brevidade, provavelmente, porque a ironia me diverte. O de física, talvez, numa fase em que eu precise de assombro. Os outros vão ficar na nota, esperando, e está tudo bem. O que eu entendi é que uma lista de leitura não é um plano. É um registro de atenção alheia, e a atenção alheia é um recurso mais raro do que livros.
Da próxima vez que alguém me indicar algo, vou anotar o título e, logo abaixo, o que a pessoa estava vivendo quando disse aquilo. Acho que vai ser a melhor parte da nota.
— MS