Órfãs
A página inicial do meu sistema de notas se chama Carro novo. Não é sobre carro. Nunca foi; o arquivo nasceu com esse nome num dia em que eu ia anotar alguma coisa sobre um carro, desisti, e em vez disso montei ali o painel que abre toda vez que entro. Hoje ele mostra o que está esperando triagem, as metas do ano, o que mudou por último. E nunca troquei o nome, em parte por preguiça, em parte porque a cada vez que vejo acho engraçado, e um sistema de notas pessoal pode ser engraçado sem pedir licença a ninguém.
No fim da página tem uma consulta que roda sozinha. Chamei de revisão quinzenal, e o que ela faz é simples: procura todas as notas que não têm uma nota-pai. No meu sistema, toda captura precisa apontar para cima: para uma meta, para um tema, para um mapa. É a regra. Nada pode existir solto. E a consulta lista as que existem solto mesmo assim.
Chamo essas de órfãs. A palavra apareceu sozinha e ficou.
Durante um tempo tratei a lista de órfãs como um erro a corrigir. Via o número, abria cada uma, achava um pai, linkava, e o número caía. Era satisfatório do jeito que arrumar gaveta é satisfatório. Mas comecei a reparar no tipo de nota que aparecia ali, e o padrão me desconcertou. As órfãs não eram as notas descuidadas. Eram as mais honestas.
“As órfãs não eram as notas descuidadas. Eram as mais honestas.”
Uma nota que nasce com pai nasce com uma intenção já classificada. Eu sei, no momento em que escrevo, para que serve e onde se encaixa. Isso é bom para o sistema e ruim para o pensamento, porque o pensamento mais interessante é justamente o que ainda não sabe onde se encaixa. Uma frase ouvida no rádio. Uma pergunta que não tem tema. Uma ideia que, se eu tivesse que linkar a uma meta, eu teria que inventar a meta. Essas vêm soltas. A consulta encontra e me pede para adotá-las, e cada vez que adoto uma, sinto que estou fechando uma porta que a nota tinha deixado aberta de propósito.
Então mudei a regra sem mudar a consulta. Ela continua rodando, continua listando. Só que agora eu leio a lista de órfãs como uma lista de coisas que ainda não decidi, não como uma lista de coisas que esqueci. A diferença parece pequena. Na prática, é a diferença entre um sistema que me corrige e um sistema que me mostra.
O painel chamado Carro novo tem outras consultas. Capturas novas. Metas ativas. Notas tocadas recentemente. Todas elas mostram o que o sistema sabe de si. A das órfãs é a única que mostra o que ele não consegue absorver, e por isso virou a parte da página para onde olho primeiro. Não para zerar. Para ver o que está sobrando.
Tem uma ideia que gosto, de que todo sistema de organização tem um lixo, e que o lixo diz mais sobre o sistema do que o que ele guarda. A pasta de rascunhos de quem escreve. A gaveta de cabos de quem monta coisas. A lista de órfãs de quem anota. Se eu só olhasse o que está bem classificado, veria um homem organizado. Olhando o que sobra, vejo o que ele ainda não entendeu sobre si mesmo o bastante para dar um nome. Prefiro o segundo retrato. É menos lisonjeiro e mais útil.
Nunca vou trocar o nome do arquivo. Carro novo. Um painel de controle de uma vida inteira com o título de uma anotação que nunca escrevi. Toda vez que abro, ele me lembra de que o sistema foi feito por alguém que muda de ideia no meio da frase, e que as órfãs no fim da página são a prova de que isso não parou de acontecer.
— MS