O volante
O primeiro sinal de que eu precisava de um coach foi perceber que eu já tinha vários, e nenhum funcionava. Tinha o app de hábitos com as bolinhas verdes. Tinha a planilha. Tinha o lembrete no celular que eu deslizava para o lado sem ler. Todos me perguntavam a mesma coisa de jeitos diferentes: você fez? E eu respondia sim ou não, e nada acontecia depois. Era um questionário, não uma conversa.
Então escrevi o meu. Não por achar que faria melhor que empresas com centenas de designers, mas porque o que eu queria não existia: um sistema que soubesse quem eu sou antes de me perguntar como foi o dia. Que soubesse que estou construindo um produto e que esse produto está parado há três semanas. Que soubesse que a meta de longo prazo tem um número e uma data, e que me cobrasse em função disso, não em função de uma régua genérica de bem-estar.
A ideia central veio de Jim Collins, de um conceito que ele chama de 20 Mile March. É uma história sobre duas expedições à Antártida. Uma avançava o máximo que o tempo permitia nos dias bons e parava nos dias ruins. A outra andava vinte milhas por dia, sempre, chovesse ou fizesse sol. A segunda chegou. A primeira morreu. A lição não é sobre esforço; é sobre regularidade. O que importa não é o dia heroico, é não ter dia zero.
E a imagem que acompanha isso é a do volante. Um disco pesado que você empurra. As primeiras voltas custam tudo e parecem inúteis. Depois de um tempo, o momentum passa a trabalhar a seu favor e o esforço diminui enquanto a velocidade aumenta. Não é um app de hábitos. É um lugar para empurrar o disco.
“O que importa não é o dia heroico, é não ter dia zero.”
O coach é uma persona. Escolhi o próprio Collins, calibrei o tom: reflexivo, disciplinado, sem gritar. Ele me manda uma lista de manhã, pergunta de noite o que pesou, e aos domingos propõe um desafio baseado no que está parado na minha vida. Não no que eu digo que está parado — no que de fato está, porque o aplicativo lê as minhas anotações. Tem uma diferença grande entre um lembrete que diz "você não treinou hoje" e uma mensagem que diz "o projeto que você começou em agosto não aparece nas suas notas há dezessete dias". A segunda eu não consigo deslizar para o lado.
Aprendi mais sobre mim desenhando as perguntas do que respondendo a elas. A primeira versão pedia uma nota de 1 a 10 para o dia. Pareceu óbvio. Depois de algumas semanas, olhei o histórico e vi 6, 7, 7, 8, 6, 7, 7. Nenhuma informação. Eu não sabia a diferença entre um dia 6 e um dia 7, e estava inventando o número para preencher o campo. Era falsa precisão, uma régua mais fina do que a minha capacidade de sentir. Troquei por cinco palavras: péssimo, ruim, na média, bom, ótimo. O número sumiu da tela. Agora, quando digo "ruim", o aplicativo pergunta o que pesou, e eu tenho que escrever uma frase. Essa frase vale mais do que meses de sete.
Outra coisa que descobri: a mentira dos dados de exemplo. Nas primeiras telas, enquanto o sistema de refeições não existia, coloquei números fictícios para ver o layout. Proteína 142 de 180. Calorias 1.240. Ficou bonito. E ficou lá, semanas, me mostrando um progresso que eu não tinha medido. Quando percebi, tirei tudo e deixei zero com um aviso: isso ainda não está sendo rastreado. É feio. Mas é a diferença entre um painel e um espelho.
Há um risco óbvio em tudo isso, e eu o conheço. Construir a ferramenta pode virar substituto de usar a ferramenta. Passei fins de semana ajustando o carrossel de cards, a cor dos anéis, o ícone. Nada disso empurra o disco. Tenho uma regra agora: só mexo no aplicativo se a mudança resolver um atrito que apareceu usando. Se a ideia veio enquanto eu estava programando, ela espera.
E tem a questão de quem está falando. Um coach com nome de autor é uma máscara. Eu sei que sou eu quem calibrou o tom, quem escolheu as perguntas, quem decidiu que ele seria amigo e não sargento. Quando ele diz "lembra que você disse que não ia conseguir? olha o que você fez", é uma frase que eu escrevi para mim mesmo meses antes, esperando o dia em que eu precisaria ouvir. Não sei se isso é autoengano ou se é só a forma mais honesta de usar a tecnologia: colocar a sua melhor versão para falar com a pior, em horário marcado.
O disco está girando, devagar. Algumas semanas são de vinte milhas; outras, de oito. O aplicativo registra as duas sem comentário. Aos domingos, ele pergunta qual vai ser o contrato da próxima semana, e eu respondo sabendo que na quarta-feira vou querer renegociar. Ele não deixa. Eu também não deixaria, se fosse ele. Talvez seja.
— MS