Doze zonas
Num fim de tarde de que não lembro mais o motivo, abri uma tela em branco e desenhei um círculo no meio. Escrevi dentro dele: curiosidade. Depois fui puxando linhas para fora, como quem desenha um sol de criança, e em cada ponta coloquei uma palavra. Quando parei, tinha doze. Inteligência artificial. Comunicação. Patrimônio. Investimentos. Produtividade. Casa inteligente. Fazer com as mãos. Saúde e longevidade. Aprender e ensinar. Música e estética. Filosofia, agnosticismo, religiosidade. E um jogo de computador de 1997.
Guardei o desenho e esqueci dele por meses. Reencontrei por acaso, procurando outra coisa, e o que me chamou atenção não foi o que estava ali. Foi o quanto o desenho mentia, sem querer, sobre quem o desenhou.
Mentia por omissão, primeiro. O trabalho não está no mapa. Passo a maior parte das horas acordado fazendo uma coisa que, pelo visto, não considero uma zona de curiosidade. Isso diz algo. Não sei se diz que o trabalho deixou de me interessar ou se diz que interesse e obrigação ocupam cômodos diferentes na cabeça, e o mapa era só o cômodo de um deles. Suspeito que seja a segunda. Mas a primeira não sai inteiramente da sala.
Mentia por proporção, também. No desenho, todas as doze têm o mesmo tamanho. Na vida, não. Fui conferir quanto cada uma tinha de verdade por trás, em notas, projetos, coisas feitas. Inteligência artificial e casa inteligente ocupam prateleiras. Patrimônio tem uma meta com nome e um sistema que escrevi para medi-lo. O jogo de 1997 tem um servidor rodando agora, enquanto escrevo. E depois vem o resto. Música: nada. Saúde: um plano de treino escrito por outra pessoa. Fazer com as mãos: uma única nota, e dentro dela um vídeo de trinta segundos sobre um suporte de mesa que nunca construí. Comunicação: dois títulos de livro que alguém me indicou.
“Um mapa só de continentes seria exato. Seria também o mapa de alguém que parou de olhar para o mar.”
Um mapa com doze zonas do mesmo tamanho, sobre um território em que três delas são continentes e quatro são ilhas que só existem no mapa.
Fiquei tentado a corrigir. Apagar o que não tem lastro, deixar só o que tenho prova de que me interessa. Mas aí o mapa deixaria de ser um mapa de curiosidade e viraria um inventário de hábito, e esses são bichos diferentes. Curiosidade é o que eu olharia se tivesse tempo. Hábito é o que olho de qualquer jeito. O desenho estava tentando registrar o primeiro, e o primeiro, por definição, não tem lastro ainda. Se tivesse, seria o segundo.
O que me incomoda não é que a zona de música esteja vazia. É que esteja vazia há anos e eu continue desenhando-a. Em algum momento uma curiosidade sem nenhum ato por trás deixa de ser curiosidade e vira uma espécie de saudade de uma pessoa que eu não me tornei. O mapa guarda essas saudades com o mesmo traço que guarda as coisas reais, e talvez seja essa a função dele: não dizer o que sou, mas o que ainda não desisti de ser.
Tem um documento ao lado desse, no mesmo sistema, que resume tudo isso melhor do que eu conseguiria. É um plano para o ano. Dei a ele um nome com a energia de quem só vive uma vez. Embaixo do título, a única linha escrita é sobre infraestrutura de software. Uma linha. Eu nomeei o ano como uma aventura e preenchi com o que estava na minha frente naquela terça. Não acho que seja hipocrisia. Acho que é como a cabeça funciona: a ambição escolhe o título e o cotidiano escreve o corpo do texto.
Não apaguei nada do mapa. Mudei só uma coisa: o tamanho dos círculos. Agora os que têm lastro são maiores, e os que são só desejo ficaram pequenos, quase pontos. Não para me punir, mas para o desenho parar de mentir por proporção, já que mentir por omissão ele vai continuar; o trabalho segue fora, e eu ainda não decidi se isso é um problema.
De vez em quando abro o mapa e olho para os pontos pequenos. Música. Fazer com as mãos. Ensinar. Fico esperando que um deles cresça sozinho, o que obviamente não acontece. Círculos não crescem. O que cresce é o que está por trás deles, e isso exige uma tarde inteira que eu ainda não dei. Mas gosto que estejam ali, pequenos, insistindo. Um mapa só de continentes seria exato. Seria também o mapa de alguém que parou de olhar para o mar.
— MS