Uma casa é uma lista
A meta chama-se Casa. Tem um campo para o racional, o porquê, e esse campo está vazio. Tem um campo para a definição de sucesso, e esse também. O que não está vazio é a lista de subtemas, e a lista é esta: o aquecedor. O cheiro de um dos banheiros. A irrigação do jardim. A manutenção do ar-condicionado. Os interruptores. As torneiras. A luz de uma área externa. Alguma coisa para quando a energia cai.
Li isso numa noite e demorei a entender por que me incomodava. Era uma meta, no mesmo lugar e com o mesmo formato das outras metas, as grandes, as que têm um número e um prazo. E o conteúdo dela era uma lista de coisas quebradas.
Depois entendi que não era incômodo. Era reconhecimento. Uma casa é isso. Ninguém avisa, porque o momento de comprar ou construir é cheio de outras palavras, mas o que você adquire, junto com as paredes, é uma lista que nunca termina. Não a lista de coisas que você quer fazer com a casa; a lista de coisas que a casa quer que você faça por ela. A diferença entre as duas é a diferença entre um projeto e um compromisso.
Tem um tipo de pessoa que faz paz com a lista cedo. Chama o profissional, paga, anota, segue. Eu não sou esse tipo, e demorei para admitir que isso tem um custo. Cada item da lista, para mim, vira primeiro uma pesquisa. Como funciona um aquecedor desse tipo. Por que um banheiro cheira mesmo limpo. Qual é o sensor certo para saber se choveu o bastante para pular a rega. A pesquisa é prazerosa; é a parte da lista que parece curiosidade. O conserto é outra coisa. O conserto exige uma tarde, uma ferramenta que não tenho, e a disposição de errar numa coisa que vai continuar ali, errada, me olhando, até eu voltar.
“Olho para ela e vejo oito projetos interessantes. Minha família olha e vê um banheiro que cheira.”
Então a lista fica. Não porque eu não saiba resolver, mas porque sei demais sobre cada item e de menos sobre terminar. Olho para ela e vejo oito projetos interessantes. Minha família olha e vê um banheiro que cheira.
O que me chamou atenção, na meta, foi o campo vazio do porquê. Todas as outras metas têm um racional, mesmo torto. Essa não. E acho que é porque a casa não precisa de racional. Ela é o lugar onde o racional mora. Perguntar por que manter a casa é como perguntar por que respirar: a resposta é que você está dentro. A lista não existe para alcançar nada. Existe para que o lugar onde tudo o mais acontece continue funcionando o suficiente para que você não precise pensar nele.
Reparei que os itens da lista têm uma ordem que não é a de importância. Os que envolvem cabo e configuração sobem; os que envolvem cano e cheiro descem. É a minha ordem, não a da casa. Se fosse a da casa, o aquecedor viria primeiro, porque é o único item cuja falha acorda alguém às cinco da manhã com água fria. Mas o aquecedor é cano, é um profissional que precisa vir, é uma conversa que não controlo. O interruptor é meu. Então o interruptor foi feito e o aquecedor continua lá, no topo de uma lista que eu classifico por conforto de execução e finjo que classifico por urgência.
Não sei se vou terminar a lista. Desconfio que a lista não termina; termina-se uma versão dela e outra começa, com itens que hoje nem existem, porque uma casa é um organismo lento que vai trocando as partes. O que mudou foi outra coisa. Parei de tratar os itens como interrupções de uma vida que estaria acontecendo em outro lugar. A lista é a vida, ou pelo menos a parte dela que acontece entre paredes. Oito coisas quebradas, um campo de racional vazio, e um homem que prefere pesquisar a consertar, tentando aprender a diferença.
— MS