Disciplina

Nove e meia

MS·Nov 2026·6 min de leitura

O jantar começa às oito. Saio às nove e quinze, sempre com a mesma frase, e sempre no momento em que a mesa está ficando boa. Tem uma hora, em qualquer jantar, em que as pessoas param de contar o que fizeram e começam a dizer o que pensam. Costuma ser depois das nove e meia. Eu nunca estou lá.

Dormir cedo é uma decisão sobre manhãs. Foi assim que tomei: queria as horas antes do sol, o treino, o silêncio, e para ter cinco da manhã é preciso pagar com nove e meia da noite. A conta fecha. O que ninguém avisa é que é também uma decisão sobre amigos. A segunda metade da noite é onde a vida social acontece, e eu troquei a segunda metade das noites pela primeira metade das manhãs, e ninguém está acordado para ver a parte que ganhei.

Isso cria uma solidão específica, que não é a de estar sozinho. É a de estar desalinhado. O mundo tem um horário, e o meu está três horas deslocado dele: existo quando os outros dormem e durmo quando os outros existem. As mensagens chegam às onze e eu respondo às cinco. Os convites são para as nove e eu negocio para as sete. Vivo numa espécie de fuso horário pessoal, na mesma cidade que todo mundo.


0h4h3012h18h21h3024h só meu trabalho casa sono a vida dos outros o que sobra a hora boa da mesa
As horas em que existo para os outros, e as em que existo só para mim. Pouca sobreposição.

“Troquei a segunda metade das noites pela primeira metade das manhãs, e ninguém está acordado para ver a parte que ganhei.”

Durante um tempo fingi que não custava. É a tática padrão de quem escolheu alguma disciplina: minimizar a perda para não ter que defender o ganho. Mas custa. Perdi conversas. Perdi a hora em que um amigo ia dizer a coisa que precisava dizer, e disse para quem ficou. Sei disso porque às vezes me contam no dia seguinte, em resumo, e o resumo nunca é a coisa. Um horário rígido é uma porta que fecha sempre no mesmo lugar, e as pessoas que chegam depois aprendem a não bater.

O que ganho é real e é difícil de mostrar, porque acontece quando não há testemunha. A cidade às cinco. A cabeça inteira antes de qualquer conversa. Uma hora de corpo que é só minha, não roubada de ninguém porque não há ninguém de quem roubar. Se eu tentar descrever isso num jantar, soa como pregação ou como desculpa. Então não descrevo. Saio às nove e quinze com a frase de sempre e deixo que achem o que quiserem.

Tem uma coisa que aprendi tarde: a rigidez do horário protege o horário, mas a rigidez é a parte que afasta. Ninguém se ofende com alguém que dorme cedo. Ofendem-se com alguém que dorme cedo sem exceção, porque a ausência de exceção diz que nenhum deles vale uma noite ruim de sono. Isso não é o que eu penso. Mas é o que a regra diz, e as pessoas leem a regra, não o pensamento.


Agora quebro. Não muito; umas poucas vezes por ano, em noites que sei que importam, fico até o fim. Pago no dia seguinte, com uma manhã arrastada e um treino ruim, e esse pagamento é parte do ponto: a exceção só vale alguma coisa se custar. Se eu quebrasse de graça, a regra não existiria; se nunca quebrasse, a regra seria eu.

Ainda saio às nove e quinze na maior parte das noites. Ainda perco a hora boa da mesa. Mas aprendi a ver o que estou perdendo com algum respeito, em vez de fingir que não está lá. Dormir cedo me deu as manhãs. O que ele tira, eu só consigo ver de longe, na manhã seguinte, pelo resumo de quem ficou. Um dia desses, talvez, fico até o fim só para saber como termina.

— MS