Gavetas vazias
Abri o sistema de notas numa tarde de domingo com a intenção de arrumar, e em vez disso fiquei contando. Cinquenta e tantas notas. Dessas, mais de trinta tinham um título, um cabeçalho bonito gerado por template, três seções com nomes como "Contexto", "Ideia" e "Próxima ação", e absolutamente nada escrito dentro. "Trocar os aquecedores do banheiro." Vazia. "Cheiro no banheiro." Vazia. "Interruptores." Vazia. "Projeto da cabana." Vazia, criada em janeiro, com um link para a meta do ano e nada mais. Os diários da manhã tinham um campo chamado "Top 3" com três caixinhas desmarcadas, uma embaixo da outra, por semanas.
A primeira reação foi vergonha. Eu tinha construído um sistema elaborado, com hierarquia de metas, temas e tópicos, com consultas automáticas que montam painéis a partir dos metadados, com um esquema de cores no grafo, e o sistema estava cheio de gavetas com etiqueta e sem roupa. Pensei na quantidade de vídeos que eu tinha visto sobre o método. Pensei na palavra "zettelkasten" e em como ela soa sofisticada na boca de quem não tem nenhuma nota desenvolvida.
A segunda reação demorou mais e foi melhor.
Olhei para os títulos. Eles não eram aleatórios. "Trocar os aquecedores" era uma coisa que precisava ser feita e que eu tinha medo de esquecer. "Cheiro no banheiro" era um problema que eu ainda não tinha diagnosticado. "Viagem" era um desejo. "Cabana" era um sonho grande demais para caber numa nota, e por isso a nota ficou vazia: o que eu ia escrever, a planta? Cada título era uma pressão que eu tinha sentido e descarregado no sistema, em vez de carregar na cabeça. O vazio não era abandono. Era o registro exato do momento em que algo se tornou importante o bastante para ganhar nome e ainda não importante o bastante para ganhar texto.
“O sistema de notas é menos um lugar de conhecimento e mais um lugar de intenções.”
Existe uma diferença entre capturar e elaborar que todos os manuais explicam e que eu só entendi contando notas vazias. Capturar é barato e tem que ser: se custar mais do que dez segundos, você não faz. Elaborar é caro, exige que você sente, pense, escreva mal e reescreva. O erro não é ter muitas capturas vazias. O erro é achar que elas deveriam estar cheias, como se o sistema fosse uma biblioteca em vez de uma fila.
Mas tem uma pergunta incômoda que o domingo me deixou: quantas dessas gavetas eu vou abrir de novo? Algumas são óbvias. O aquecedor quebrado vai ser trocado quando a água esfriar o bastante. Outras, não sei. "Ideia de mesa com suporte interno", com um link para um vídeo de vinte segundos. Vou construir essa mesa? Provavelmente não. Mas a nota existe, e existe por um motivo: naquele momento, eu quis. A nota é a prova de um desejo que o resto da vida não deixou crescer.
Comecei a achar que o sistema de notas é menos um lugar de conhecimento e mais um lugar de intenções. O que ele registra, no fim, não é o que sei. É o que quis saber, fazer, resolver. E a proporção entre títulos e textos é uma medida honesta de algo que eu preferia não medir: a distância entre a vida que eu desenho e a que eu executo. Trinta gavetas vazias para dez cheias. Três para um.
Não acho que o número esteja errado. Uma vida em que todas as intenções viram execução é uma vida sem sobra, e eu desconfio de quem não tem sobra. Mas também não acho que seja para deixar como está. Fiz uma coisa simples naquele domingo: apaguei quatro notas. Coisas que eu não ia fazer e que sabia que não ia fazer. Foi mais difícil do que parecia. Apagar "Projeto da cabana" seria admitir que a cabana não vai existir, e eu não estava pronto para isso, então ela ficou. Apaguei as outras quatro. O sistema ficou um pouco mais leve e um pouco mais verdadeiro.
Tem um detalhe que me pegou. Os diários da manhã, aqueles com o "Top 3" vazio, não estavam realmente vazios. Embaixo, na seção de log, de vez em quando aparecia um link. Um artigo sobre fintech. Um vídeo sobre arquitetura de agentes. Uma lista de livros que alguém me indicou numa conversa. Nenhuma frase minha, nenhuma reflexão, só o rastro do que tinha passado pela minha atenção naquele dia. Pareciam notas vazias e eram, na verdade, as mais cheias: diziam exatamente o que eu estava olhando quando deveria estar olhando para as três coisas mais importantes do dia. As caixinhas em branco e o link logo abaixo contavam a história inteira.
Fechei o sistema sem arrumar nada além das quatro notas. Decidi que a arrumação de verdade não é mover arquivos, é escolher três gavetas por mês e escrever dentro delas, mesmo que mal. Se funcionar, daqui a um ano a proporção vai ter mudado um pouco. Se não funcionar, pelo menos vou saber, com precisão de arquivo, o que eu quis e não fiz. Não sei qual dos dois resultados me ensina mais.
— MS